Caderno de Campo
Fieldbook
Fieldbook
Propósito
Este espaço não pretende ser mais do que um diário muito pessoal onde anoto algumas considerações, pensamentos, angustias, dificuldades ou vitórias de um processo de doutoramento. Não é tanto para que outros/as obtenham informações que possam ser relevantes, mas sim para eu me “registar” a mim mesmo e obrigar-me a olhar o percurso feito deste processo. Vejo-o como um diário esquecido num banco de jardim, à mão de quem o quiser abrir e folhear.
O primeiro ano do programa de doutoramento, um ano que foi lectivo, com a componente de seis seminários, foi concluído com sucesso. As muitas leituras que foram feitas abriram em muitos casos novas perspectivas e linhas de abordagem ao tópico do meu projecto. Porém, ao mesmo tempo, essas leituras do ano lectivo foram-me também fazendo sentir que me afastava lentamente do meu propósito. As muitas leituras que já tinha feito no âmbito do meu tema ficaram assim “em suspenso”, quebrando-se muito do ímpeto com que as vinha realizando, para abrir espaço a novas leituras.
Encontro-me agora no segundo ano. O primeiro semestre deste segundo ano compreende dois seminários apenas. Um deles pressupõe a entrega de um relatório final, e o outro, sendo um seminário de preparação do projecto de tese, compreende a apresentação do meu projecto de tese individual – aquilo que pretendo fazer – para ser defendido até ao final do primeiro semestre do segundo ano. A partir do segundo semestre, em 2025, começarei então o meu trabalho de campo.
Alterno momentos de produção estruturada com momentos de uma certa angústia. Sou bolseiro da FCT, tendo assim um cronograma que tenho de respeitar. Mas, as coisas nunca são tão lineares assim nem correm exactamente como tínhamos planeado que corressem. Isto resulta em ter para entregar e Dezembro 2024/Janeiro 2025 o relatório de um dos seminários do segundo ano e o projecto de tese para defender até ao final deste primeiro semestre, como já referi. Porém, a isto vai juntar-se a preparação de uma apresentação num congresso internacional, a publicação de um ensaio na revista online Cabo dos Trabalhos, a participação enquanto editor na publicação deste número da revista, e mais a colaboração na realização de um colóquio. Por estar a chegar a um momento em que tenho variadas tarefas para realizar em tão poucos meses, sinto-me por vezes angustiado por não me poder dedicar já em exclusivo ao meu projecto de doutoramento, em particular porque a minha condição de monovisual não me permite usar a vista durante tantas horas diárias que eu desejava/precisava, obrigando-me a ter de escolher a cada momento o que é mais importante de receber a minha atenção: e até agora não tem sido o meu projecto – salvo a escrita do projecto de tese para defesa no final deste semestre – mas sim outras actividades em que estou envolvido.
Nota: 02/04/2025
Notas soltas sobre a contribuição das colónias de ocupação para a destruição cultural
Ao questionarmo-nos sobre a raiz do presente (e passados) conflito israelo-palestiniano, é impossível não considerarmos a questão dos colunatos; e isto pode (e deve) fazer com que nos coloquemos vários desafios. Tanto mais quando é impossível estabelecer uma separação entre a ideologia do colonialismo de ocupação e o termo “violência”.
Ao contrário de Kenneth Good, para quem o colonialismo de ocupação partia (em traços largos) de uma necessidade do Ocidente obter matérias-primas ao mesmo tempo que construía “mercados domésticos” para o escoamento de produtos europeus, para Patrick Wolfe o estabelecimento de colónias de ocupação implicava uma efectiva limpeza do terreno para a preparação de uma sociedade nova, o que resultaria numa eliminação (morte, expulsão) dos povos que habitavam esses locais. Para Wolfe, as colónias de ocupação “são construídas sobre a premissa da deslocação dos indígenas (ou sua substituição) das terras”, resumindo a sua definição de colonialismo de ocupação na frase “Os colonos vieram para ficar – a invasão é uma estrutura, não um evento”, frase que na sua segunda secção nos sugere veementemente que a passagem do tempo nunca pode transformar os invasores, ou seus descendentes, em habitantes autóctones. Polémico? Talvez. Porquê fugir a polémicas?
Ao pensarmos, então, sobre o conflito israelo-palestiniano, é difícil considerarmos que termos como “colunato”, “colónias de ocupação” e “genocídio” se possam encontrar à margem da posição de Adam Kirsch, quando este afirma que “o que é distintivo na ideologia do colonialismo de ocupação é que nos propõe um novo silogismo: se ocupação é uma invasão genocida, e a invasão é uma estrutura que se perpetua no tempo e não um evento completado temporalmente, então tudo (e talvez todos) o que sustém uma sociedade colonial de ocupação hoje em dia é também genocida”.
E, como para Damien Short, nem é necessário que alguém seja morto para que estejamos perante um genocídio, porque na sua essência genocídio é, na verdade, a destruição das fundações essenciais para a vida de grupos nacionais, como as suas culturas. Por outras palavras já Frantz Fanon o afirmava em 1961, mas teimamos nos mesmos erros, sem consciência de que, neste caso, é precisamente o colocar do dedo na ferida que pode combater o opróbrio e a morte.
_____
Frantz Fanon (1961). Les damnés de la terre.
Kenneth Good (1976), Settler colonialism: Economic development and class formation.
Patrick Wolfe (1999), Settler colonialism and the transformation of anthropology.
Damien Short (2016), Redefining genocide: Settler colonialism, social death and ecocide.
Adam Kirsch (2024), On settler colonialism: Ideology, violence, and justice.
Nota: 30/04/2025
Urgência de trabalho autónomo com os arquivos do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
Trabalhar com colecções do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, e com os seus arquivos, está a revelar-se uma tarefa demasiado lenta. Não tendo, por ora, autorização para o fazer sem que seja por intermédio da curadora das colecções etnográficas – que tem sido muito prestável e simpática, mas que tem, ela mesma, muito trabalho a fazer e o tempo bastante limitado –, resulta em tarefas que poderiam ser feitas em horas acabarem por levar semanas, como no caso de ter de buscar uma dada informação no arquivo mas isso ter de ser feito pela curadora – na medida em que possa e do seu tempo – e posteriormente enviado. É urgente procurar obter autorização para poder fazer este trabalho – pelo menos com os arquivos – de forma autónoma.
_____
Mais do mesmo. Sempre mais do mesmo.
Há anos que vêm tendo lugar discussões sobre como tratar, manusear, expor (ou não) colecções de um cariz mais sensível, i.e., que possam ferir susceptibilidades de quem as vê. E a que é que se assiste nos media? Mais do mesmo... crânios de negros escravizados, cabeças humanas encolhidas provenientes da América do Sul, objectos vários que se sabe que não poderiam ter encontrado outro caminho para a Europa que não fosse pela pilhagem e pelo roubo. Onde está a ética disto? Mas o que andamos nós a fazer? A perder tempo, e a gastar palavras para debater a ética no tratamento deste tipo de elementos? E os fundos gastos para a organização de congressos/encontros/colóquios, que propósito servem? É ético ver um crânio de um escravo negro na página de um jornal? Para que tenha lugar um diálogo franco e aberto no espaço público sobre o que foi (é) o colonialismo e/ou a escravatura fazem falta este tipo de "cartazes"? Repito, mas o que andamos nós a fazer? Pessoalmente, causa-me tristeza e faz-me sentir quão vazia é a posição de onde parto e o discurso que me esforço por desenvolver. O que vamos fazer a seguir? Organizar uma exposição pública com objectos que não devem ser expostos?
Ainda que possa ser acusado de com esta nota, e com a imagem que a ilustra, estar a fazer exactamente o mesmo, a cair na mesma armadilha, esta nota é crítica de uma "estratégia visual" (chamemos-lhe isso para não sermos malcriados), e não faria sentido sem a imagem em si. Seria como explicar a um invisual o que significa "molhado" sem pelo menos lhe colocar a ponta dos dedos dentro de um copo com água.
Nota: 15/10/2025
Our bodies are vehicles for silenced narratives. That, in conjunction with the notion of Debora Hickling-Gordon - that if it is not written it hasn't happened - should be, in my opinion, the first act of reparation: to be open to listen. Because as long as people remain unwilling to listen, stories embedded in our bodies can find no healing.
Um adeus particular a Maria Paula Meneses1963-2026
Ontem, dia 8 de Fevereiro, logo pela manhã, faleceu a minha Professora, orientadora de doutoramento e amiga Maria Paula Meneses. Foi ontem, mas já há tanto tempo.
Conhecida (e reconhecida) internacionalmente pelo trabalho que desenvolveu ao longo de uma carreira riquíssima, foi uma antropóloga moçambicana que se entregou de corpo inteiro aos estudos pós-coloniais com um pensamento a partir do Sul. Uma vida enorme que, na minha opinião, não foi assinalada tanto quanto penso que deveria ter sido. Ou então é o meu orgulho dela a falar.
Conheci-a e comecei a trabalhar com ela em 2011, tinha eu regressado de uma estadia tumultuosa em Angola no ano anterior. Foi já há tanto tempo, mas como se fosse ontem. E imediatamente, o meu posicionamento começou a mudar. Lembro-me de certo dia ter saído de uma conversa com ela “despenteado por dentro”. Uma tempestade massiva agitou nesse dia o lugar de onde eu estava habituado a olhar o mundo, e foi então que me fiz morcego: tantas vezes pendurado a pensar o mundo de cabeça para baixo.
E depois de me agitar nas nossas trocas de ideias, tinha o cuidado de me trazer pequenos presentes de Moçambique quando regressava, como uma pequena escultura e várias capulanas. Uma cai aqui… outra cai mais à frente… Guardo-as no meu armário das “coisas mágicas”. Mas na verdade a magia não estava nas coisas que me trazia, mas na pessoa que sempre foi. Construi o meu projecto tendo desde o primeiro minuto a Maria Paula Meneses como minha orientadora de eleição, o que ela aceitou, e me deixou muito orgulhoso.
José Eduardo Agualusa é um autor que venho revisitando muito nos últimos tempos, talvez porque me traga um pouco dos cheiros de casa que preciso não esquecer. Num dos seus livros (não me apetece dizer qual, leiam todos) sublinhei a vermelho uma frase que intui vir a usar um dia: “Não há mortes pequenas (ou vidas pequenas). O que há é mortes (e vidas) que não encontraram um narrador competente”. Pois bem, a vida da Maria Paula Meneses não foi pequena. Longe disso. A sua morte ontem também não. Mas fica-me na boca o gosto de que, por muitos narradores que tenha tido, ficou tanto por contar. Ou talvez seja a certeza de que durante algum tempo ela ainda me vá morrer todos os dias, porque lhe sinto a falta.
Partiu ontem, mas já há tanto tempo. Ou então nem foi ela quem partiu. Quem sabe parou no caminho para descansar apenas, e nós é que seguimos em frente, deixando-a sozinha.
Um dia destes tenho a certeza de que irei receber outra capulana. Tenho a certeza. Mas desta vez vai-ma enviar pelo correio e não entregar em mãos, num embrulho vindo de Moçambique e carregado de selos de muitas cores. Porque parou no caminho e descansa. A sua luta terminou, e chegou a vez de largar, de deixar ir. Agora cabe-nos a nós decidir se vale a pena pegar nas armas que nos deixou e seguir em frente. Eu digo presente.